Procuro guardar em caixas e pastas alguns documentos que, por qualquer circunstância, fizeram parte da minha vida.
Há dias, ao vasculhar uma dessas caixas, encontrei uma factura emitida em 16 de Novembro de 1976.
Conto a história ligada a essa factura.
Era eu Presidente da Câmara Municipal de Arouca quando, devido à descolonização, foi criado o “Quadro de Adidos”, onde se inscreveram muitos dos funcionários que tinham exercido, até essa altura, funções na Administração Pública nas Provincias Ultramarinas.
O Município de Arouca tinha, na altura, falta de desenhadores, pelo que contactou com o Quadro de Adidos para que fossem destacados 2 desses técnicos. Todos eram competentes, mas um deles tinha algumas excentricidades.
Certo dia, estava no meu gabinete, quando bateram à porta. Era um desses desenhadores que queria expor-me um problema.
O referido desenhador tinha uns certos comportamentos de “militarão” e, quando se abeirou da minha secretária, perfilou-se e, com um ar muito grave e decidido, disse o seguinte “:Sr. Presidente, sabe V.Exa que o meu serviço de desenhador deteriora , extraordinariamente, as mangas dos meus casacos, pelo que tive necessidade de mandar executar uns “manguitos”. Uma alma caridosa ofereceu-me o tecido e os elásticos, mas a confecção dos mesmos, custou a módica quantia de dez mil reis(10$00). Quero ser indeminizado por esta despesa”.
Fiquei um pouco perplexo pela proposta apresentada, reflecti um pouco e pensei para comigo : este gajo quer receber 10$00.
Como não tinha outra forma cordata de resolver o problema, puxei do meu porta-moedas e dei-lhe a importância reclamada.
Quando ele recebeu o dinheiro, voltou a perfilar-se em frente à secretária e teve esta tirada “ : Sr. Presidente, a partir de agora, os “manguitos ” passam a fazer parte do património municipal “.
Nota Final
Em jeito de explicação para os mais jovens, os “manguitos” eram uma peças de tecido, com duas aberturas e que se enfiavam nas mangas dos casacos. Este acessório era muito usado, sobretudo, por escriturários, que tinham de estar muitas horas sentados às secretárias.
Quanto aos “manguitos” desta história, o referido funcionário foi colocado, mais tarde, numa localidade próxima dos seus familiares mais directos e, por isso, abandonou o serviço na Câmara Municipal de Arouca.
Os referidos ”manguitos” desapareceram misteriosamente, o que, temos que convir, representou uma quebra apreciável para o património municipal.

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O que esse espertalhão precisava era que lhe tivesses “feito o manguito” às suas pretensões, mas enfim, foi o desenlace mais adequado, dadas as circunstâncias de então.